Olá Amigos!

Bem-vindos ao nosso diário na internet. Espreitem as ligações do lado esquerdo e conheçam-nos melhor, aos nossos amigos e ao nosso Mundo. E lembrem-se que podem sempre deixar-nos uma mensagem.


Voltem sempre!
Vamos, juntos, aprender e cuidar da nossa Natureza!

Querem fazer parte da nossa mailing list, para serem os primeiros a saber as novidades do CEA - AdDP? Escrevam para cea@addp.pt (assunto: mailing list) e regularmente receberão novidades nossas!
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Príncipe das Borboletas - Clube das Histórias



O PRÍNCIPE DAS BORBOLETAS


Dois dias após o décimo primeiro aniversário de John Farrington, uma migração de borboletas-monarca pousou na sua casa.
Quando John saiu nessa manhã, viu que as borboletas cobriam a parede lateral, como se fossem um tapete vivo. As asinhas cor-de-laranja abriam e fechavam, e o padrão do tapete estava sempre a mudar. Pequenos cachos de borboletas decoravam o peitoril do patamar, as cadeiras de encosto, o carro e parte do pátio.
John nunca vira nada mais belo. Ficou em silêncio para não as assustar. Embora sentisse um formigueiro nas mãos, mortas por pegar num dos bichinhos, retraiu-se com medo de que o bando levantasse voo. Mal se atrevendo a respirar, foi-se afastando da casa. Finalmente, sentou-se na relva, o mais devagar que conseguiu.

Toda esta tranquilidade não se coadunava muito com ele. John era um rapaz impulsivo por natureza, e preferia correr e gritar a estar quieto. Só que agora estava determinado a abrir uma exceção. O seu autocontrolo foi então recompensado por uma borboleta que veio pousar na ponta da sua sapatilha. Abriu e fechou as asas uma vez e, depois, começou a subir pela perna do rapaz.
Entretanto, outras borboletas vieram na sua direção e aterraram no seu ombro esquerdo. Uma, particularmente ousada, veio mesmo pousar-lhe na mão. John engoliu em seco, nervoso, e tentou dominar o medo. Afinal, o que haveria de mais inofensivo do que uma borboleta? No entanto, o rapaz sentia que algo de estranho estava para acontecer. Algo de pouco natural…
Foi então que as borboletas começaram a falar com ele. Milhares de vozes sussurravam na sua mente, tão delicadas como um roçar de asas na sua face. As vozes pediam ajuda. Faziam-no sem palavras mas de forma clara.
Uma sensação de pânico percorreu a espinha de John, que teve sérios problemas em ficar quieto. Fechando os olhos, pensou: Como? Porquê?
Mais borboletas aterraram no seu corpo imóvel: havia borboletas nas suas pernas, nos seus braços, nos seus ombros. Eram criaturas frágeis, delicadas e… assustadas. Enquanto se dirigiam a ele, a imagem de um prado, verde e tranquilo, tomava forma na sua mente. “Perdemo-nos no caminho”, sussurraram as borboletas. “Que caminho?”, pensou John. “O caminho que conduz a casa. Existe um lugar verde aqui perto, onde costumamos parar para comer e descansar. Só que agora não conseguimos encontrá-lo. Era um espaço tão grande… Para onde terá ido?”
John percebeu que se referiam ao prado, um lugar onde brincara com frequência. No último setembro, porém, uma construtora tinha começado a transformá-lo em centro comercial. A mente do rapaz reproduziu, sem querer, a imagem que o prado apresentava agora e o desespero das borboletas inundou-lhe o coração. “O que havemos de fazer? Este era o último santuário que conhecíamos nesta etapa do nosso percurso até casa. Para onde iremos agora?”
A pergunta foi feita, simultaneamente, por milhares de borboletas e trazia consigo os pensamentos de muitas outras, acabrunhadas pela tristeza. Uma voz ergueu-se e ressoou clara: “Ajuda-nos!”
“Mas, o que posso eu fazer?” pensou John, cuja alma se debatia entre o medo e o deslumbramento. “Será que existe um outro local verde aqui perto?”
O rapaz lembrou-se que, num dia do início desse mês, tinha ido vender revistas para angariar fundos para o recreio da escola. Tinha ido de bicicleta até um local distante e tinha-se perdido. Nesse mesmo local, existia ainda um oásis de verdura que os bulldozers não tinham destruído. Mal a imagem do local se formou na sua mente, as borboletas pediram, excitadas e aliviadas: “Leva-nos até lá.” “Mas como?” perguntou John.

A resposta das borboletas não surgiu sob a forma de palavras, imagens ou sentimentos. Cercaram o rapaz, roçando nele as asas, e derramaram as suas escamas minúsculas nos seus olhos, braços e pernas.
Então, abrindo as asas inesperadas que pendiam dos seus ombros, John levantou voo.
O seu coração quase rebentou de felicidade por poder deslizar pelo ar ameno. Flutuando ao sabor de brisas suaves e acompanhado por milhares de seres cintilantes e coloridos, aos quais agora se assemelhava, o rapaz sentia-se acompanhado de uma forma que nunca antes experimentara.
“Conduz-nos ao prado”, pediu o bando.
Abanando as suas asas delicadas, John ergueu-se no ar de forma a ver o rumo que deviam seguir. Mal o encontrou, logo guiou as borboletas por sobre as casas. Voaram a manhã toda, ora descansando numa sebe, ora repousando numa árvore. “Só falta mais um bocadinho”, prometeu-lhes. Quando, por fim, alcançaram o prado, as borboletas repousaram na sua verdura bravia com um tal sentimento de alívio que John se sentiu bafejado por um vento cálido.

O rapaz passou a manhã toda com elas, rastejando ao longo de caules verdes e esguios, desenrolando a língua em busca de néctar, apreciando o sol a bater nas suas asas. Por volta do meio-dia, sentiu que estava em apuros. “Será que me podem enviar de volta? A minha mãe vai ficar furiosa comigo, porque não lhe disse onde ia.”
“Fica connosco”, sussurraram as borboletas. “Fica connosco.”
John sentiu o sol nas asas, asas que poderiam erguê-lo até ao céu, conduzi-lo para longe dali, e desejou permanecer borboleta para sempre. Mas lembrou-se de que os pais estariam em cuidados e de que sentiriam a sua falta. E de que ele sentiria a falta deles.
“Não posso ficar”, disse com tristeza. “Tenho de ir para casa.”
Então, as borboletas juntaram-se todas e tudo voltou a ser como antes. Como uma borboleta que se transforma de novo em lagarta, John perdeu as asas e voltou a ser um rapaz, encandeado pela luz do sol. Tinha os pés cheios de bolhas quando chegou a casa, e estava de facto em apuros. Mas não se importou: trocaria sempre, de bom grado, uma semana no chão por um dia com asas.

A partir dessa altura, todas as primaveras John esperava pelas borboletas, que não tardavam a vir. Pediram-lhe ajuda por duas vezes mais. E, das duas vezes, o rapaz transformou-se em borboleta e conduziu-as a um lugar seguro. No ano em que fez dezassete anos, o bando deixou de aparecer. O coração de John doía de tantas perguntas. Será que ficara velho demais? Será que o tinham esquecido? Ou será que algo pior tinha acontecido? Fosse qual fosse a razão, este foi o período mais doloroso da sua vida. Mas nunca conseguiu explicar à mãe porque se sentia tão desesperado, ou porque chorava na cama à noite.
No ano seguinte, entrou para a faculdade, onde se especializou em estudos sobre borboletas. Mas, embora os professores o tenham achado um aluno brilhante, John passou um mau bocado. Não conseguia colecionar borboletas e colocá-las em caixas com alfinetes espetados. Preferia estudá-las no seu habitat natural. Ficava doente só de ver coleções de borboletas. Acabou por ter de abandonar os estudos e continuar a trabalhar por conta própria.

Trinta anos mais tarde, John persuadiu o Congresso norte-americano a aprovar a lei do “Trilho das Borboletas”, uma lei que consagra a preservação de uma série de espaços verdes para que as borboletas-monarca possam efetuar a sua migração anual em paz.
A maioria dos investigadores considera que foi John Farrington quem salvou estas borboletas da extinção.

Um dia, quando John já era velho, e deixou de poder andar, a enfermeira que tomava conta dele levou-o até um lugar ensolarado.
─ Acha que fica bem aqui? ─ perguntou-lhe, aconchegando-lhes as pernas com um cobertor, antes de se ausentar.
John acenou afirmativamente e a enfermeira foi para dentro de casa, deixando-o a gozar o calor e o silêncio daquele espaço.
Alguns minutos depois dela se ter ido embora, uma nuvem de borboletas rodeou-o. Milhares de asas roçaram a sua face e escamas minúsculas caíram sobre os seus olhos, braços e pernas.
Com o coração cheio de alegria, John Farrington esticou as suas asas pretas e laranja… e voou dali para sempre.


Bruce Coville; John Clapp
The Prince of Butterflies
Orlando, Voyager Books, 2002
(Tradução e adaptação)

________________________________________________________

Caros Leitores,

Gostaríamos de os convidar a participar num novo projeto que tem por título – Das Histórias aos Livros.
Os membros do Clube das Histórias têm vindo, desde há algum tempo, a dedicar-se à recolha e seleção de livros capazes de proporcionar uma reflexão sobre princípios éticos fundamentais para a nossa sociedade. Os temas presentes nesses livros giram em torno de valores como a solidariedade, a coragem, a honestidade, o respeito pela diferença, o sentido de justiça. Valores intemporais, que têm merecido, ao longo do tempo, a atenção de escritores de diversas nacionalidades.
Assim, em simultâneo com o envio das histórias, o Clube teria o maior gosto de colocar gratuitamente à disposição um conjunto de obras integrais divididas em trechos/capítulos, que seriam enviados todas as semanas.
Se estiver interessado(a) em receber semanalmente via email uma obra de leitura extensiva dividida em capítulos, basta responder a este email copiando a seguinte frase no campo do “Assunto”:

“Sim, estou interessado(a) em participar no projeto: Das Histórias aos Livros.”

Com a convicção de que este novo projeto do Clube das Histórias merecerá o interesse dos nossos leitores, agradecemos desde já a atenção dispensada.

Uma vez que tivemos conhecimento de que algumas pessoas têm tido dificuldade em inscrever-se respondendo a este email, sugerimos que envie a frase de inscrição para o seguinte endereço eletrónico clubecontadores@gmail.com.



O Clube das Histórias


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A patinha e a doberman - Clube das Histórias



A PATINHA E A DOBERMAN



Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse:
— Espera. Dá-lhe tempo. Acho que vai correr tudo bem.
Quando a patinha piou, a Jessie rosnou e fugiu para a casota. A patinha seguiu-a. A cadela enroscou-se na sua cama, ignorando ostensivamente a pequena criatura. Contudo, como a pata já a tinha “adotado” como mãe, enfiou-se na cama dela e aconchegou-se debaixo do seu focinho. A Jessie bem tentou expulsá-la, mas a pata não se deixou intimidar. Com relutância, a nossa cadela lá aceitou o seu novo papel, não sem antes dar um grande suspiro. O nosso filho Ricky deu à patinha o nome de “Pêssego” e rogou-nos que a adotássemos. Embora a Jessie não mostrasse gostar de ter uma filha, também não tinha atitudes ameaçadoras para com ela, e, por isso, decidimos ficar com a patinha e dar tempo ao tempo.
 Nas semanas seguintes, e de forma surpreendente, a Jessie começou a levar a sério o seu papel de mãe. Quando a Pêssego começou a debicar o chão, a Jessie ensinou-a a escavar. Quando a Pêssego começou a perseguir bolas de ténis, a “mãe” ensinou-a a apanhá-las. E quando a Jessie se esparramava no sofá a ver o programa “Planeta Animal”, a Pêssego aconchegava-se debaixo do focinho dela. Após um ano inteiro de escavações, sonecas, e apanhadelas de bolas conjuntas, a Pêssego pesava oito quilos e parecia feliz no seu papel de “cachorrinha” da Jessie. Um dia, porém, a Pêssego deu-se conta de que era uma pata. Começou a pôr ovos uma vez por dia e tornou-se obcecada por água. Durante as refeições, enquanto a Jessie comia, a Pêssego chapinhava numa tina de água.
Certa noite, a Jessie ficou frenética porque a Pêssego desaparecera. Pensámos que tinha sido algum coiote a levá-la, enquanto a Jessie dormia. A nossa cadela ladrou e uivou, como o faria qualquer mãe angustiada que perdesse um filho. Depois de uma busca aturada pela vizinhança, decidimos desistir. Nessa altura, a Jessie correu para o pátio de um vizinho. Seguimo-la e vimos a Pêssego a tomar um bela banhoca quente numa banheira. A Jessie saltou para dentro da casa do vizinho e foi buscá-la. Por muito que quiséssemos conservar a Pêssego connosco, era óbvio que ela precisava de “abrir as asas” e de se juntar ao mundo dos patos. O Ricky atou uma fita vermelha à perna da patinha, colocou “mãe” e “filha” dentro do carro, e fomos até um lago próximo. Durante a viagem, a Jessie aninhou-se junto da Pêssego e lambeu-lhe a cabeça. Era como se soubess e exatamente o que ia acontecer e porquê.
Quando chegámos junto do lago, ambas se precipitaram para junto da água. A Jessie saltou primeiro. A Pêssego seguiu-a, num passo inseguro. Nadaram juntas durante alguns metros, até a Pêssego tomar a dianteira e se juntar a um bando de patos. A Jessie voltou para terra e sacudiu a água do corpo. Sentou-se durante alguns minutos a olhar para a “filha”. Depois, deu um latido e saltou para dentro do carro, como se dissesse “São horas de deixar a minha pequenina voar”.
De regresso a casa, o Ricky colou, na casota da Jessie, fotografias dela e da Pêssego a escavarem, a apanharem bolas e a aconchegarem-se. Durante muito tempo, após a partida da patinha, a nossa cadela foi até junto do lago. Víamos a fita vermelha da Pêssego e pensávamos ouvir também o seu grasnar a dizer-nos “Olá”. A maternidade mudou a Jessie. Outrora insociável e intimidante, cedo se tornou amiga de todos na vizinhança. Sempre que podia, ia brincar com os outros cães, e, quando tínhamos visitas, saltava para lhes lamber a cara. “Rosnar” foi algo que deixou de fazer parte do seu vocabulário.
No dia em que as tínhamos visto juntas, pela primeira vez, temeramos o pior. Nunca imaginámos que uma bolinha de pelo amansaria a nossa enorme Doberman para sempre…


Donna Griswold


______________________________________


Caros Leitores,

Gostaríamos de os convidar a participar num novo projeto que tem por título – Das Histórias aos Livros.
Os membros do Clube das Histórias têm vindo, desde há algum tempo, a dedicar-se à recolha e seleção de livros capazes de proporcionar uma reflexão sobre princípios éticos fundamentais para a nossa sociedade. Os temas presentes nesses livros giram em torno de valores como a solidariedade, a coragem, a honestidade, o respeito pela diferença, o sentido de justiça. Valores intemporais, que têm merecido, ao longo do tempo, a atenção de escritores de diversas nacionalidades.
Assim, em simultâneo com o envio das histórias, o Clube teria o maior gosto de colocar gratuitamente à disposição um conjunto de obras integrais divididas em trechos/capítulos, que seriam enviados todas as semanas.
Se estiver interessado(a) em receber semanalmente via email uma obra de leitura extensiva dividida em capítulos, basta responder a este email copiando a seguinte frase no campo do “Assunto”:

“Sim, estou interessado(a) em participar no projeto: Das Histórias aos Livros.”

Com a convicção de que este novo projeto do Clube das Histórias merecerá o interesse dos nossos leitores, agradecemos desde já a atenção dispensada.

Uma vez que tivemos conhecimento de que algumas pessoas têm tido dificuldade em inscrever-se respondendo a este email, sugerimos que envie a frase de inscrição para o seguinte endereço eletrónico clubecontadores@gmail.com.


O Clube das Histórias

 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Clube das Histórias: A Menina Coração de Pássaro

______________________________________

A Menina Coração de Pássaro



Era um pássaro e era uma menina. Um pássaro de árvore de Natal que tinha perdido a mola e a vassoura, brilhante, do rabo. E uma menina, sonhadora e solitária, que falava com as flores e sabia o coração das coisas.
Como o pássaro não tinha voltado a entrar na caixa das bolas e das grinaldas prateadas, ficado por feiura ao abandono, a menina levara-o para o seu quarto. Nessa noite, aconchegou-o num gorro de lã, que virou em jeito de ninho, e lá o deixou com o biquinho de fora, para que pudesse respirar a fofidão das sombras e bebesse, pela manhã, o nascimento da luz.
O pássaro conservava o seu branco lunar, prateado e vidrento, e uma cor caramelada que se repetia no bico e nas asas. Só lhe faltava um rabo. E a menina deu-se, por tarefa, procurar-lho.
Ao outro dia, mal se levantou, pôs-se em campo e, depois de buscas aturadas por cantos e recantos, encontrou uma peninha fofa dum chapéu de palhaço e um feixe de hastes longas que dormiam num antigo baú. Misturada a peninha arfada, sopro de respiração verde e musguenta, às hastes flexíveis, como ervas tenras de primavera, mas dum vermelho palpitante e sanguíneo, o efeito era surpreendente! Tinha o que precisava.
Com muito cuidado, a menina tirou do ninho o seu protegido e com uma fita adesiva, colou-lhe o novo e sumptuoso rabo.
Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da luz da manhã clara e devolvia-os, numa brita lantejoulada, de arco-íris. E a menina pôs-se a amá-lo tanto que sempre que o seu coração anoitecia entrava no corpo luarento e espelhado e voava pela janela.

Que estranhas eram as noites! E que bom era voar! Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim. Espaços ora sombrios e nevoentos, ora floridos de estrelas, sucediam-se num deslumbramento. Aos pontos luminosos da noite, respondiam outros pontos, luminosos, na Terra. Eram as casas, os navios, as cidades dos homens que, vistas assim de cima, pareciam enormes teias de aranha, preciosamente orvalhadas. Os faróis dos carros, os comboios riscando as trevas, semelhavam estrelas cadentes. E a menina aventurava-se cada vez mais e mais. Subia e respirava aquela liberdade única: a do sonho. E, duma vez, chegou às estrelas – que incendiavam o azul com seus ramos de fogo.
Num cantinho, ao deslado, estava uma estrelinha que se pôs a piscar os olhinhos, num convite mudo, mas insistente. E a menina aproximou-se com o seu estranho corpo de pássaro.
— Quem és? — perguntou a estrela. — Aqui só nos chegam os satélites dos homens. Nunca te vi.
— Não sei bem como explicar-te — atrapalhou-se a menina. — Sou pássaro e sou menina… Ou melhor, sou uma menina coração de pássaro.
— Complicado, mas bonito. Vem-me fazer companhia! Estou tão cansada de ser estrela!
Então a menina coração de pássaro, já afoita e confiante, pousou-lhe num dos ramos.
— Como podes estar cansada de ser estrela?! — censurou. — A Terra desdobra-se a teus pés, com um imenso mapa e vês a lua a mirar-se nas águas. Tu mesma lá estás dobrada como se tivesses uma irmãzinha gémea. Não gostas de te ver ao espelho?
— Todas as noites em frente de um espelho é um pouco cansativo, não achas?
— Não sei… Só sei que invejo a tua sorte, estrelinha! — suspirou a menina. — Daqui vês a Terra apertada no anel, movente, das águas. Não há nada mais belo, nem mais vasto que o mar!
— Como te enganas! Estou aqui há milhares de anos e posso dizer-te que mais vasto que o oceano é o sofrimento dos homens…
— Como pode isso ser?! — perguntou, afligida, a menina.
— O egoísmo tornou-os tão alheios e isolados que um rosto se tornou uma parede para outro rosto. Os ricos vivem longe dos pobres, ensurdecidos à dor e à miséria. Os países fecham-se, por fronteiras, e esmagam-se através de guerras e chacinas. Aqui, não me chegam os perfumes da Terra, nem a mutação, colorida, das estações. Daqui, o teu planeta é habitado por gritos e banhado por um oceano de lágrimas…
— Com toda a beleza da Terra?!
— Com toda a beleza da Terra — confirmou a estrela. — A beleza é igualada pelo sofrimento e é ele que a torna tão necessária, frágil e preciosa.
— Porquê?! Porquê?! Explica-me, estrelinha, para ver se entendo!
— Os homens deixaram-se dominar pelas máquinas que inventaram. Tornaram-se peixes e pássaros monstruosos, criaram astros artificiais. Mas não aprenderam a viver, lado a lado. E o oceano das lágrimas cresce sem cessar.
— É terrível o que me dizes. Já chorei algumas vezes — confessou a menina — mas, agora é como habitar uma lágrima. Como poderão os homens reencontrar o caminho da felicidade?
— Quem me dera sabê-lo!... Talvez precisem de uma nova imaginação, uma imaginação que não seja mecânica como a que os tornou poderosos, mas lhes secou o coração, entendes?
— Não sei bem… — respondeu, pensativa, a menina. — Quando eu era mais pequena, nos dias em que não havia sol, sentia-me muito triste e infeliz, como uma flor que não pudesse espreguiçar as suas pétalas. Desolava-me, murchava. Até que um dia imaginei que uma rosa gigante e mágica cobria o sol. E com aquela beleza imaginada me consolava. Será uma imaginação assim que faz falta aos homens?

(…)
________________________________________________________

Caros Leitores,

O Projeto Clube das Histórias: Abrir as portas ao sonho e à reflexão, tem vindo, ao longo dos anos, a difundir-se de uma forma significativa não só em Portugal como também no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa. No sentido de assegurar a sua continuidade, foi constituída uma equipa pedagógica formada por professores de vários grupos disciplinares e provenientes de diversos estabelecimentos de ensino, que têm a seu cargo a seleção, preparação e envio gratuito de uma história semanal por correio eletrónico.


O Clube das Histórias visa assim promover a literacia, contribuindo para o gosto pela leitura de pequenos contos que podem fazer a diferença no mundo de hoje, contos esses que convidam não só a refletir como a sonhar…. As histórias, que são selecionadas em função do conteúdo ético e simbólico, permitindo deste modo uma reflexão sobre os princípios fundamentais da sociedade atual, abordam temas relacionados com as vivências individuais e coletivas, e transmitem valores como a solidariedade, a justiça, a generosidade, o amor, o respeito por si próprio e pelos outros, a delicadeza, a responsabilidade, entre muitos outros.

Pode visitar o nosso blogue http://contadoresdestorias.wordpress.com onde irá encontrar histórias sobre os mais diversos temas, atividades pedagógicas múltiplas e textos de reflexão.
E é sempre com muito gosto que lhe enviamos gratuitamente, em cada semana, histórias que o farão sorrir e pensar…
BOAS LEITURAS!

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

ac@contadoresdehistorias.com
 clubecontadores@gmail.com

________________________________________________________



Clube das Histórias

Projeto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão

________________________________________________________

Caros Leitores,

Gostaríamos de os convidar a participar num novo projeto que tem por título – Das Histórias aos Livros.
Os membros do Clube das Histórias têm vindo, desde há algum tempo, a dedicar-se à recolha e seleção de livros capazes de proporcionar uma reflexão sobre princípios éticos fundamentais para a nossa sociedade. Os temas presentes nesses livros giram em torno de valores como a solidariedade, a coragem, a honestidade, o respeito pela diferença, o sentido de justiça. Valores intemporais, que têm merecido, ao longo do tempo, a atenção de escritores de diversas nacionalidades.
Assim, em simultâneo com o envio das histórias, o Clube teria o maior gosto de colocar gratuitamente à disposição um conjunto de obras integrais divididas em trechos/capítulos, que seriam enviados todas as semanas.
Se estiver interessado(a) em receber semanalmente via email uma obra de leitura extensiva dividida em capítulos, basta responder a este email copiando a seguinte frase no campo do “Assunto”:
 

“Sim, estou interessado(a) em participar no projeto: Das Histórias aos Livros.”

Com a convicção de que este novo projeto do Clube das Histórias merecerá o interesse dos nossos leitores, agradecemos desde já a atenção dispensada.

Uma vez que tivemos conhecimento de que algumas pessoas têm tido dificuldade em inscrever-se respondendo a este email, sugerimos que envie a frase de inscrição para o seguinte endereço eletrónico clubecontadores@gmail.com.